Mercado
Construção civil mantém atividade, mas confiança cai ao menor nível de 2026
Emprego e vendas de imóveis novos sustentam o setor, enquanto juros, crédito restrito e custos elevados aumentam a cautela de construtoras e incorporadoras.
Por Angélica Jenevain ·

O mercado brasileiro da construção chega ao último trimestre de 2026 com sinais aparentemente contraditórios. Os canteiros continuam contratando e as vendas de imóveis novos permanecem positivas, mas os empresários estão menos confiantes sobre os próximos meses.
O Índice de Confiança da Construção (ICST), calculado pelo FGV IBRE, caiu 1,4 ponto em setembro, para 90,5 pontos, o menor resultado do ano. A queda atingiu tanto a avaliação da situação atual quanto as expectativas. O indicador de demanda prevista recuou para 90,1 pontos, menor nível desde maio de 2021, e a utilização da capacidade instalada baixou para 78,1%.
A leitura da Confederação Nacional da Indústria (CNI) reforça o cenário de cautela. Em setembro, os quatro indicadores de expectativa pesquisados pela CNI voltaram a apontar ao mesmo tempo para contração da atividade nos seis meses seguintes. As perspectivas pioraram para compras de insumos, nível de atividade, emprego e novos empreendimentos.
Emprego e vendas ainda sustentam o mercado
Apesar da perda de confiança, a atividade não parou. Dados do Novo Caged mostram que a construção abriu 20.848 vagas formais em agosto. Entre janeiro e agosto, o saldo chegou a 200.431 postos, crescimento de 6,79% no emprego do setor.
O mercado imobiliário também conserva demanda. Os indicadores Abrainc-Fipe mostram que as vendas de imóveis novos cresceram 11,4% entre janeiro e abril de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025, puxadas pelo Minha Casa, Minha Vida. O resultado veio mesmo com menos lançamentos, que caíram 3,7% no período.
Essa combinação explica a aparente contradição: as empresas ainda têm obras, vendas e contratações, mas passaram a enxergar mais riscos para o futuro.
Custos e crédito limitam novos projetos
O custo da construção continua pressionando os empreendimentos. O INCC-M (índice que mede a variação dos custos da construção) avançou 0,25% em setembro e acumulou alta de 6,61% em 12 meses, segundo a FGV. Embora a variação mensal tenha desacelerado, o índice segue acima da inflação ao consumidor (o IPCA acumulou 4,58% em 12 meses até setembro, segundo o IBGE), o que exige mais atenção aos orçamentos e cronogramas.
O crédito é outro ponto de atenção. Análise do BB Investimentos aponta que as taxas de financiamento imobiliário apresentaram apenas uma leve acomodação, enquanto a retirada de recursos da poupança segue limitando uma das principais fontes do crédito habitacional. Assim, uma redução da taxa básica de juros (Selic) não chega imediatamente ao comprador nem ao caixa das incorporadoras.
O cenário em Santa Catarina
Santa Catarina tende a continuar crescendo, mas em ritmo mais moderado. A FIESC projeta expansão de 1,94% para a construção estadual em 2026 e aponta como obstáculos os juros elevados, a restrição do crédito e a pressão de custos com mão de obra e insumos.
O mercado catarinense, entretanto, não é uniforme. A FIESC destaca a região da Foz do Rio Itajaí: com Balneário Camboriú saturado, Itapema lidera as obras novas e Porto Belo surge como nova fronteira. Já os empreendimentos mais dependentes de financiamento bancário ficam mais expostos ao encarecimento do crédito.
O que isso significa para quem compra ou investe
Para compradores, o cenário não indica necessariamente queda generalizada de preços, mas pode abrir espaço para negociação em determinados segmentos. Para construtoras e investidores, a palavra de ordem é seletividade: localização, público-alvo, estrutura de financiamento e controle de custos serão decisivos na escolha de novos projetos.
Em números
- Confiança da construção: 90,5 pontos em setembro.
- Empregos gerados na construção: 200.431 entre janeiro e agosto.
- Vendas de imóveis novos: alta de 11,4% entre janeiro e abril.
- INCC-M: 0,25% em setembro e 6,61% em 12 meses.
- Projeção da construção em Santa Catarina: crescimento de 1,94% em 2026.
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